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Ensaio

do Blog Poesia Avulsa

http://poesia-avulsa.blogspot.com/

Ensaio
Ai
esses olhos
que me fulminam
devoram
roubam o ser,
essa boca
que saqueia
sem rodeios
e me mata a sede,
essas mãos
que me descobrem
desnudam
e arranham,
esses braços
que me rodeiam
apertam afrouxam
e voltam a apertar,
esse peito
que roça ao de leve
me electriza
e incendeia,
essas pernas
que me enleiam
desbravam
e desventram.

Ai desse corpo que me ateia!

Ardo.

Alexandra Rosado

FLORES - papoila



no campo te entendo mais
entre uma denúncia de charme
improviso ondulante
na rubra cor que te invade
salpicos de muitas lendas
iluminas em tantas memórias



António MR Martins
 
http://poesia-avulsa.blogspot.com/2011/12/flores-papoila.html

Poesia Avulsa: Espero...

Poesia Avulsa: Espero...

Espero...


Vem…
Enlaça-me nos teus braços
Levanta-me do chão
Enleia-me nos teus beijos
Que o meu coração
Já pulsa na tua mão

Vem,
meu cavaleiro andante
Fruto da minha imaginação
Faz-me princesa dos teus contos
No suave entoar da tua canção

Vem, toma-me…
Faz deste momento o leito
Em que todos os sonhos
Se tecem em doces suspiros
Arrepio…

Vem…
E juntos descobriremos o êxtase
vivido … na concha que respira
E é fruto saboreado
Nos lábios que por ti se abrem
Com ou sem razão…

Espero…

Ana Fonseca Sousa

SONHOS


Os sonhos
são tantas vezes segredos...


Esvoaçam breves,
como aves,
atravessando a solidão,
em proezas subtis.
São halos poéticos
que, como os raios de sol,
se dissipam em breves horas.


O que resta,
é a invernia polar !...




Lita Lisboa

Esperança





Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que apenas ouve o eco...
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio de um vinho herético e sagrado.


Miguel Torga

Chuva

O Dia Deu em Chuvoso

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Queixa das almas jovens censuradas

Queixa das almas jovens censuradas:

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte


Natália Correia

Os carreiros dos desígnios

Os carreiros dos desígnios:

Por entre os vales do medo
Se acorrentam maleitas
Algo podres e sem cura

Pedaços das secas fontes
Onde não surgiram nascentes
E demais pretendentes

Há um fio da corrente
Que não seca o prazer
De continuar por diante

Mas o conflito da dor
Interioriza o mal
Sem outra solução

Há um valor atingido
Por mera coincidência
Entre os regos do vapor

Nada se tende a melhorar
Nas origens e destinos
Dos desígnios que vão surgindo

O pensamento se prende
Aos carreiros impuros
Que nos tolhem a mente

E o restrito concluir
Nos invade o âmago
Com tudo o que irá surgir


António MR Martins

Imagem na net.
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